terça-feira, 27 de setembro de 2011

Quanto tempo tenho?

Olhou o despertador barato sobre o criado mudo improvisado enquanto passava as mãos nos cabelos, nervoso.
A luta contra o tempo era constante.
Às vezes a vontade era a de chacoalhar a maldita ampulheta do tempo, para que as areias corressem mais depressa. Às vezes, nos poucos momentos parecidos com aquele, tentava segurar a mesma areia com as mãos, mas os segundos lhe escorriam pelos dedos, tal qual a areia das praias de Santos, visitadas uma ou duas vezes quando a mãe ainda era viva, ele apenas uma criança e a vida um livro de colorir.
Ela chegou quinze minutos depois da hora combinada.
E o quartinho do homem cujo silêncio foi comprado pareceu quase tão pequeno quanto o corpo dela própria para tanta ira. Jogou-lhe as cartas, as malditas cartas, no rosto.
Foram ao chão. Ele não as pegou.
Ela nunca entenderia o porquê das respostas para todas aquelas outras mulheres. Ela nunca entenderia a necessidade dele de se sentir amado. Ela nunca entenderia que todo o amor do coração calejado tinha uma única dona. Ela.
Brigaram por mais quinze minutos. Ela brigou só, na verdade.
Eles precisariam de mais tempo... Mas ele não se importava nenhum pouco em dispor de mais alguns pacotes de cigarro, a moeda corrente naquele submundo a que ele tinha sido enviado.
E lá se foram mais cinco minutos... Mais cinco preciosos minutos.
Cansado de esperar ele resolveu aquilo da única maneira que sabia: com o corpo.
Bater nela era inconcebível.
Sua princesa, sua rainha, sua estrela, sua menina.
Mas segurar não era bater, era?
Levou pouco menos de um minuto inteiro antes que ela parasse de se debater nos braços fortes, marcados pro resto da vida com tinta de caneta.
Levou pouco menos de vinte minutos para o dono do quarto voltar a aparecer. Não quis negociar outra hora, teve medo, mas dispensou as algemas na hora de levar o companheiro marginal de volta para casa.
Ele saiu olhando sobre o ombro. Olhando sobre o mesmo ombro em que se pendurava a camiseta branca-encardida.
Ela sustentou os olhos castanhos até que ele os desviou... Então se focou no único motivo que a fazia voltar para aquele inferno duas vezes por mês, as inscrições que ele tinha um palmo abaixo da nuca, também em tinta de caneta.


Perdoa, meu amor, esse nobre vagabundo.

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